Enquanto hoje discutimos se estamos em uma nova fase da evolução histórica – o que muitos chamam de pós-modernidade, entre os séculos XIX e XX a discussão era outra: caracterizar a modernidade. Um dos frutos dessa busca em caracterizar e situar a modernidade no seu contexto histórico foi o estabelecimento, institucional e teórico, da sociologia.
Segundo Boaventura de Sousa Santos (2008), foi durante o século XIX, período do capitalismo neoliberal, que explodiram as contradições do projeto da modernidade, como a solidariedade e a identidade, entre justiça e autonomia, entre igualdade e liberdade. Além disso, a partir de um conceito empobrecido de sociedade civil – concebida como uma agregação competitiva de interesses particulares – foi estabelecida a maior dualidade do pensamento político moderno, o dualismo Estado-sociedade civil. Nessa concepção, o Estado é uma realidade construída, uma realidade moderna quando comparada com a sociedade civil, uma vez que, de acordo com Hayek (1979) “as sociedades formam-se, mas os Estados são feitos”.
Essa sociedade moderna do século XIX havia se estabelecido sobre a base dos ideais da revolução francesa de igualdade e democracia, mas ao assistir à quebra de suas principais promessas e, consequentemente, confiança em diversas de suas instituições, como família, governo, religião – instâncias que homogeneizavam crenças, sentimentos e equalizava a sociedade ao regular e equilibrar desejos e paixões, causando, de acordo com Durkheim, diversos problemas sociais (como o suicídio) – os indivíduos do século XIX foram expostos a um forte clima de incertezas e falta de segurança. Em momentos de crise, a sociedade fica sem capacidade de exercer seus freios morais, de uma consciência superior à dos indivíduos, e estes deixam de ser solidários e a coesão social fica ameaçada. Por isso Durkheim procurou na esfera do trabalho, nos grupos profissionais, um lugar de reconstrução da solidariedade e da moralidade – qualidades, segundo ele, necessárias nas sociedades industriais. Isso porque ele nos diz que “há uma moralidade profissional do advogado, do soldado, do professor, do médico”. Neste contexto, as corporações desempenhariam o papel de autoridade moral e fonte de vida para seus membros.
Por causa dessa crise, a “consciência coletiva” abriu espaço para a “consciência individual”, em que os indíviduos voltam-se para si e fazem declinar a consciência comum. Com isso, a coesão social, vínculo existente entre os participantes de uma sociedade, deixaria de existir nos moldes da sociedade tradicional (“solidariedade mecânica”) e passaria a existir na sociedade moderna a partir de uma “solidariedade orgânica”, em que cada indivíduo, por meio da especialização profissional, ocupa um lugar específico de atuação para colaborar com os demais, levando a sociedade a funcionar como um organismo.
Neste caso, o indivíduo acredita agir individualmente, mas ele acaba respondendo a fatores externos já que a vida social lhe impõe um modo de agir, o fato social, que é algo exterior a ele, coercitivo e geral. Aqui a ideia central é a de que existe uma lógica na ação das pessoas uma vez que os seres não são indeterminados, mas regidos por forças sociais. Um exemplo disso é o esforço da educação em formar um ser social ao impor certas maneiras de viver, sentir e agir. Como nos diz Durkheim para ilustrar isso, “se, com o tempo, esta coerção deixa de ser sentida, é porque pouco a pouco dá lugar a hábitos, a tendências que a tornam inúteis”.
Em sua busca pelo capitalismo moderno, Max Weber nos oferece “A ética protestante e ao ‘espírito’ do capitalismo” com um olhar pouco comum sobre esse sistema – visão que veio a partir do estudo do protestantismo, especificamente o Calvinismo, que favorecia o comportamento racional. Ao contrário do cristianismo, o ganho de dinheiro, se feito de forma legal, é vangloriado e sinônimo de sucesso. A salvação deixava de ser estática, contemplativa e passava a ser ativa, pois o fiel deveria buscar sua savação por meio do trabalho.
Para Weber, nas sociedades capitalistas, possuir bens e ter a possibilidade de usá-los no mercado acaba ajudando a determinar a posição das pessoas. Essa perspectiva trazida pelo protestantismo permitiu aos empresários reverterem sua posição de baixo prestígio social e se transformarem nos heróis da nova sociedade que se instalava, com consequências marcantes sobre a vida econômica: “combinando restrição do consumo com a liberação da riqueza, é óbvio que daí decorre a acumulação capitalista atrás da compulsão ascética da poupança”.
Considerando o capitalismo como uma forma de conduta, Weber propõe o controle das pulsões por meio da racionalidade, dando reconhecimento ao indíviduo que renegar seus impulsos, sacrificando a si por meio da sublimação. Aqui, o trabalho exerce uma função tão estrutural e importante na sociedade que ele se enraíza no comportamento e nos valores morais. Ele torna-se um imperativo moral, já que o não-trabalho é condenado.
A aproximação do capitalismo com a ciência moderna faz com que a ciência influencie diversas instituições da sociedade. A produção, nesse contexto, é impulsionada pela técnica e pela ciência. É possível notar também uma autonomização relativa dessas instituições em relação às outras, já que esferas como ciência, arte e moral desprendem-se da doutrina religiosa que, até então, dava sentido à vida. Aqui aparece a questão do “desencantamento do mundo” em que o indíviduo deixa de enxergar sua realidade por meio da metafísica para vê-la com base em fênomenos racionais e científicos.
Para Karl Marx, o trabalho também ocupa posição central na sociedade – uma vez que o homem é um ser social, e o trabalho é uma atividade humana, este se desenvolve socialmente. Marx traz, com essa análise, uma perspectiva politizada de ciência crítica da sociedade que procura construir uma vontade política radical de transformá-la numa sociedade mais livre, igualitária, justa e humana.
A sociedade evolui, necessária e deterministicamente, ao longo de várias fases: o nível de desenvolvimento das forças produtivas determina e explica o conjunto das relações sociais de produção – a estrutura econômica da sociedade; a estrutura econômica da sociedade, a base econômica, explica e determina as formas políticas, jurídicas e culturais que dominam a sociedade – a superestrutura.
A ênfase de seu trabalho está na dominação de uma classe sobre a outra, cuja classe dominante lucra com essa dominação. Neste caso, a dominação não é mais exercida por meio da força, mas de forma implícita e obscurecida – as ideias dominantes (econômica, política, cultural, intelectual) refletem a cultura burguesa. A sociedade desigual precisa parecer justa e ideal, formando a imagem de justiça igualitária. Dessa forma, a classe dominada não tem a noção de que está trabalhando para enriquecer o patrão e o indivíduo pode ter a ideia de ser pleno em sua potencialidade. Com esse olhar, a sociedade é dividida em classes com interesses antagônicos.
É interessante notar o papel que a ciência ocupa para esse três pensadores. Para Durkheim, a ciência colabora para o embasamento e difusão das especializações – potencializando a coesão social para promover a solidariedade mecânica. No caso de Weber, a ciência é o motor da produção. Já, para Marx, as ciências só se desenvolvem à partir das relações de produção.
Em relação a análise que os três fizeram do capitalismo moderno, de acordo com o olhar de Boaventura (2008), Durkheim e Weber se diferenciam de Marx ao traçar uma análise que considera apenas as variações presentes do capitalismo. Marx, por fazer uma análise do capitalismo e uma prosposta de mudança para ele, pode ter feito o que pode ter sido uma das últimas grandes utopias da modernidade.
Referências Bibliográficas
Livros
DURKHEIM, Emile. As regras do método sociológico. São Paulo: Martins Fontes, 2007.
MARX, Karl; ENGELS, Friederich. O manifesto do partido comunista. IN: Estudos avançados. N. 34, Vol. 12, 1998.
SANTOS, Boaventura de Sousa. Pela mão de Alice: o social e o político na pós-modernidade – 12ª edição. São Paulo: Cortez, 2008.
WEBER, Maximillian Carl Emil. A ética protestante e o espírito do capitalismo. São Paulo: Cia das Letras, 2004.
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