Um dos grandes debates da nossa atualidade gira em torno da relação entre as esferas da subjetividade e da sociedade. Como veremos mais à frente, essa relação toma diversos contornos, gerando desejos, imposições, patologias, dissimetrias, negação da herança simbólica, idealizações inalcançáveis, crença na independência, valorização extrema do individualismo. Este último, por sinal, é um dos pilares da vida na sociedade moderna – pós ou hiper-moderna, como definem alguns autores – que se choca diretamente com o discurso de liberdade. Por isso, antes de avançarmos na discussão, vale a pena passarmos por uma breve contextualização de como esse valor chegou para se estabelecer como um elemento estrutural da sociedade contemporânea.
Segundo Boaventura de Sousa Santos (2008), foi durante o século XIX, período do capitalismo neoliberal, que explodiram as contradições do projeto da modernidade, como a solidariedade e a identidade, entre justiça e autonomia, entre igualdade e liberdade.
De acordo com essa concepção, incluindo aqui as análises sociológicas do individualismo narcisista, o mal-estar contemporâneo seria fruto da queda das utopias do século passado. A sociedade moderna do século XIX havia se estabelecido sobre a base dos ideais da revolução francesa de igualdade e democracia, mas ao assistir à quebra de suas principais promessas e, consequentemente, confiança em diversas de suas instituições, como família, governo, religião – instâncias que homogeneizavam crenças, sentimentos e que equalizavam a sociedade ao regular e equilibrar desejos e paixões, causando, de acordo com Durkheim, diversos problemas sociais (como o suicídio) – os indivíduos do século XIX foram expostos a um forte clima de incertezas e falta de segurança. Nesse contexto de crise, a sociedade fica sem capacidade de exercer seus freios morais, de uma consciência superior à dos indivíduos. Estes deixam de ser solidários e a coesão social fica ameaçada. Por causa dessa crise, a “consciência coletiva” abriu espaço para a “consciência individual”, em que os indivíduos voltam-se para si e fazem declinar a consciência comum.
Neste caso, o indivíduo acredita agir individualmente, mas ele acaba respondendo a fatores externos já que a vida social lhe impõe um modo de agir, o fato social, que é algo exterior a ele, coercitivo e geral (Durkheim, 2007). Aqui a ideia central é a de que existe uma lógica na ação das pessoas uma vez que os seres não são indeterminados, mas regidos por forças sociais – assim como nos diz Lacan, que o inconsciente é social e o outro está dentro do próprio sujeito; ou como fala Calligaris sobre o processo civilizatório consistir em uma progressiva internalização do controle. Este controle, por sua vez, e aqui aparece um sinal do mal estar, só é mantido pela vontade do indivíduo. Um exemplo disso é o esforço da educação em formar um ser social ao impor certas maneiras de viver, sentir e agir. Como nos diz Durkheim para ilustrar isso, “se, com o tempo, esta coerção deixa de ser sentida, é porque pouco a pouco dá lugar a hábitos, a tendências que a tornam inúteis” ou então teremos um sujeito em conflito com essa educação e, talvez, se sentindo impotente em relação a ela por não atingir seu ideal.
Outro ponto que merece espaço nessa discussão sobre as esferas da subjetividade e sociedade é quanto à nossa constituição. Hegel nos traz a visão de que somos constituídos a partir da negatividade. Assim como Lacan diz que somos formados – e nos formamos – por meio das nossas frustrações em relação ao objeto desejado e não pelo sucesso na aquisição dele.
Nossa existência na sociedade é uma relação desejada, necessária e conflituosa. Segundo Hannah Arendt, um dos motivos do desejo e necessidade da vida em sociedade é que ela reconhece nossa existência, uma vez que as relações dão sentido à existência – ainda que a existência seja marcada pelo pensamento (subjetividade), ou seja, pela conversa do sujeito com ele mesmo. Podemos interpretar esses dois argumentos como contraditórios ou encará-los como duas ideias complementares à medida que o sujeito precisa, primeiro, estabelecer uma identidade para ser reconhecido como um ser único e, posteriormente, ser reconhecido pelo mundo a partir disso. Por outro lado, é uma relação conflituosa à medida que o outro (a sociedade, a cultura) lhe impõe maneiras de ser que podem lhe render conflitos, angústias e frustrações.
Essas imposições acabam por fazer com que o indivíduo odeie sua herança simbólica, já que ele está inserido em um contexto que prega a liberdade individual acima de tudo e o sujeito como principal pilar da sociedade. Isso acaba gerando uma dificuldade de reconhecimento da dívida simbólica, uma dívida que pagamos pela condição humana, com nossos antepassados e com a coletividade a que pertencemos. Essa coletividade só tem sua humanidade garantida por meio da linguagem, que media sua relação com o mundo e insere o sujeito na ordem simbólica.
Ao significar algo estamos atribuindo um desejo de ordem. Lembrando os ensinamentos de Bauman (1998) sobre a civilização estar pautada no compromisso, a ordem age sobre a desordem – isso porque a ordem é algo regular, estável e desejável pelas pessoas como uma forma de trazer constância e segurança à vida cotidiana. Ainda de acordo com Bauman, a visão de ordem, em meio a um contexto de valorização extrema da beleza e a da limpeza, acabou por fundir esses três elementos, chegando a uma ordem de pureza para as coisas. Longe de serem estáticos, esses modelos de pureza são alterados constantemente com base no convívio humano – ao ponto de extrapolarmos esse modelo para as nossas relações cotidianas, querendo eliminar a sujeira e a metassujeira. Nessa linha de pensamento, inclusive as pessoas foram categorizadas como sujas – ou seja, quem não têm acesso ao consumo, excluídas da troca simbólica que as mercadorias trazem. Esse ideal de pureza constante é o que Bauman traz como um dos principais traços da pós-modernidade, em que sempre temos novos padrões, recusamos a tradição, colocamos a renovação como palavra de ordem, colocando até as nossas relações afetivas nesse patamar – fazendo referência a uma das obras de Bauman, “Amor Líquido”. Assim como aconteceu na modernidade, em que os revolucionários eram as impurezas da época, por serem entusiastas daquele contexto, tentando sempre ir além das fronteiras estabelecidas, as impurezas da pós-modernidade são aqueles que não respeitam a lei (a ordem). Assim, pudemos aprender com Bauman que cada cenário, sistema, contexto, gera seus próprios excessos e contradições.
Um exemplo desses excessos e contradições são as patologias existentes. Elas andam de mãos dadas com a cultura e a sociedade. Uma vez que estas últimas são dinâmicas, o que implica em uma mudança constante na interpretação e significação delas e de seu contexto; o mesmo acontece com as patologias, em que “cada época organiza seus gozos e tem as patologias que merece” (Calligaris, 1992). Não é à toa que, em uma sociedade voltada para o indivíduo, que joga toda a responsabilidade de sua formação e construção para ele mesmo, vê despontar patologias em ritmo crescente, como ansiedade, estresse, depressão, drogadição. Consequentemente, é possível ver também um aumento no uso de medicamentos para controlar essas síndromes, como uma tentativa de equilibrar as pulsões e frear os desejos, tirando o indivíduo do contato com o que lhe aflige. Esse questionamento dos medicamentos é amplamente debatido pelos psicanalistas, que vêem na terapia uma maneira de fazer o sujeito se relacionar com o vazio existencial, assim como com seus excessos e faltas, levando-o a conviver com ideias parciais de felicidade e satisfação.
Outro excesso da nossa época é o culto ao individualismo, que podemos obter uma análise interessante a partir de Lipovestki.
Gilles Lipovetski (2004) faz uma análise otimista, e talvez ingênua, sobre como acontece a tolerância à diferença na sociedade. Os valores atuais da época atual, denominada por ele “hipermodernidade”, estão intensificados. Nesse cenário, o corpo torna-se objeto de consumo e as pessoas estão em constante transformação, o que, segundo ele, traz maior aceitação da diferença por parte delas mesmas, por também desejarem aceitação – em uma relação de “respeito por interesse”. Em meio a essa mobilidade subjetiva, em que as pessoas se permitem ter uma personalidade “à la carte”, esse respeito daria espaço a um individualismo responsável, que busca resgatar os laços sociais em busca de uma nova ética da sociedade. Interessante notar que, apesar do interesse de Lipovetski por esse indivíduo narcisista, que deseja a solidariedade e aceita a diferença porque é algo que também lhe beneficia, Lipovetski aponta que a mudança da sociedade aconteceria por meio das instituições. Neste caso, parece faltar uma ponte que faça a ligação de um indivíduo que se sente parte ativa dessa instituição e que, por meio dela e com a ajuda de seus iguais, conseguem alterar os rumos da sociedade.
Essa análise de Lipovetski pode parecer otimista por termos exemplos cotidianos de intolerância e por existir uma grande oposição entre o narcisismo e a alteridade em que o grupo social não suporta a diferença e procura invalidá-la. Como Joel Birman pontua, esse é apenas outro exemplo do nosso fracasso face à intolerância. Há outros exemplos, como a violência simbólica na propaganda, em que vemos anúncios de automóveis de luxo em revistas semanais de informação – que alcançam indivíduos de diversas classes sociais – que dizem “apenas R$ 91 mil”. Desconsiderando a responsabilidade social da fabricante do automóvel, da agência que criou e da revista que veiculou o anúncio, podemos notar que essa violência se dá não apenas pelo objeto de consumo ser mostrado para classes que não têm acesso a ele, mas também pelo “apenas”, que traz a conotação de que quem não pode comprá-lo é um fracassado. Inclusive, alguns publicitários dizem que a inveja é o propulsor do luxo. Neste caso, as classes com menor poder aquisitivo tem uma função importante na construção simbólica do que é valorizado, para que a classe com maior poder aquisitivo veja benefício na obtenção daquele objeto.
Nessa linha de pensamento, de um sujeito como instrumento para a manutenção dos laços, o conceito que Calligaris (1991) nos traz quando fala sobre reduzir a subjetividade a uma instrumentalidade, exemplificada por meio do “funcionário exemplar”, apaixonado pela ideia de ser “perfeito” em sua função laboral, parece se aproximar do que Weber nos ofereceu com a “A ética protestante e o ‘espírito’ do capitalismo”, ao buscar uma definição para o capitalismo moderno, em que o trabalho é o bem maior e torna-se um imperativo moral. No caso de Weber, a racionalidade trazida por essa ideia daria reconhecimento aos indivíduos que renegassem seus impulsos, sacrificando a si mesmos por meio da sublimação. Diante de tudo isso, conforme completa Calligaris, o indivíduo acaba sendo apenas instrumento para a manutenção do laço social totalitário.
Outro ponto relevante para a discussão é a passagem do ser para o ter. Com Marx fomos apresentados à ideia da passagem de uma sociedade do ser para uma sociedade do ter, em que a sociedade teria que parecer ser justa e ideal, formando a imagem de justiça igualitária. Dessa forma, a classe dominada não tem a noção de que está trabalhando para enriquecer o patrão e o indivíduo pode ter a ideia de ser pleno em sua potencialidade. Quando dizemos ter algo, é justamente porque temos a necessidade de obter aquilo que sabemos não ter, já que é diante do desamparo e da angústia que buscamos sentido no outro. Como nos lembra Kehl (2002), a atribuição de sentido não é própria da vida humana: ela acontece por meio da significação do que é aleatório e sem sentido. Ela completa essa ideia ao dizer que essa produção de sentido não é individual – por seu alcance simbólico residir no coletivo e na cultura. Ao longo das últimas décadas, diz Kehl, a criação de sentido para a existência tem se apoiado cada vez menos em razões filosóficas e cada vez mais em questões mercadológicas. Um dos problemas desse movimento é que as razões de mercado acabam reduzindo a vida ao seu menor nível e criando a ilusão de que um desejo pode ser satisfeito. Ainda de acordo com essa ideia, Calligaris pontua que os ideais fálicos baseados no lado do ter é algo constantemente compartilhado, principalmente por termos a promessa de gozo satisfatório – o que se transforma em angústia e violência à medida que descobrimos que essa satisfação nunca é plena, mas parcial. Como nos lembra Pacheco (1999), a falta é constitutiva inerente ao ser humano e buscar uma felicidade moderada se apresentaria como um desafio considerável a todos nós. Por fim, a imposição do ter acaba se tornando um modo de alienação para o gozo e o consumo do indivíduo narcísico, que tem sua autonomia individual valorizada, já que podemos ter, inclusive, uma dependência tão extrema do sujeito em relação ao objeto que ele acaba se tornando objeto do objeto. Vale lembrar o que Ocariz (2002) diz sobre o desejo também ser entendido como um mecanismo de defesa para evitar a dor, assim como Freud, ao mencionar sobre a vida ser muito árdua e o fato de não podermos dispensar de medidas paliativas para suportá-la.
Isso nos remete a um trecho que Freud nos explica em “O mal estar na civilização” sobre cada um ter que achar sua própria salvação:
“(…) a satisfação é obtida através de ilusões.”
É possível ampliar nossa visão sobre o consumo a partir de Sahlins (2004), em que a troca e o consumo são meios de comunicação, já que as pessoas também transmitem sua identidade e atuam politicamente por meio do consumo (Canclini, 2005). Ainda de acordo com essa idéia, Sahlins explica:
“O objeto representa um conceito humano exteriorizado, como um homem falando com outro por meio de coisas. (…) os bens representam um código objetal para a significação e valorização das pessoas e ocasiões, funções e situações”.
A questão da plenitude da satisfação também aparece na educação. Um trecho interessante da análise de Melman (2004) que merece uma analogia com acontecimentos cotidianos é a relação de amor e ódio com o saber. É comum ouvir relatos de pessoas que dizem ter sido altamente influenciadas por um tema por causa de um professor instigante que as fizeram se interessar e a apreender o conteúdo (relação de amor). Por outro lado, a recíproca não é verdadeira em temas interessantes para a pessoa mas que o professor não “tenha colaborado” com o aprendizado. Outra análise interessante de Melman nos diz que sempre partimos de uma posição ideal para ensinar as crianças, mas esse mesmo ideal nos confunde. Além disso, a expectativa que a criança seja ideal para seguir a educação transmitida traz consigo um desejo de que a criança esteja morta, já que não é possível, por meio da existência, concretizar esse ideal – uma vez que a existência é impura e suja.
Apenas para exemplificar essa ideia, a banda canadense Simple Plan expôs, por meio da música “Perfect”, as angústias enfrentadas pelos adolescentes – faixa etária com maior aceitação por esta banda:
“Hey dad look at me
Think back and talk to me
Did I grow up according to the plan?
And do you think I’m wasting my time doing things I wanna do?
But it hurts when you disapprove all along
And now I try hard to make it
I just wanna make you proud
I’m never gonna be good enough for you
I can’t pretend that
I’m alright
And you can’t change me
‘Cause we lost it all
Nothing lasts forever
I’m sorry
I can’t be perfect
Now it’s just too late
And we can’t go back
I’m sorry
I can’t be perfect
(…)”
Em uma breve análise deste trecho da música, um jovem tem uma conversa difícil com seu pai, expondo suas expectativas, frustrações e impotência quanto à formação ideal recebida por ele e aos conflitos gerados por ela.
O clichê que usamos trivialmente quando nos contradizemos em relação àquilo que dissemos “faça o que digo, mas não faça o que eu faço” parece fazer sentido neste contexto – ela exime o indivíduo da culpa de seus atos e camufla sua existência contraditória natural, ainda que tentemos transmitir uma idealização do saber.
Dessa relação, brevemente debatida aqui, podemos dizer que essa relação da subjetividade com a sociedade traz uma sensação ambígua e complementar para o sujeito, já que até o desejo – que poderia ser atribuído a ele – pertence a uma herança recebida por meio da cultura e da sociedade. Neste contexto, o sujeito sente-se tão livre e autônomo, quanto controlado por um contexto do qual ele também ajuda a construir. Ele tanto é fruto quanto produto. Tanto molda quanto é moldado. Isso nos permite fazer uma analogia a Foucault, sobre não existir pessoas determinadas – ou instituições – responsáveis pelo poder. Ainda que não tenham isso em mente e entrem em conflito consigo mesmos, o poder se daria por todos os sujeitos, que tanto o exercem, quanto são alvos dele.
Bibliografia
Livros
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CALLIGARIS, Contardo. Sedução totalitária. IN: Clínica do Social. São Paulo: Escuta, 1991.
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CANCLINI, Nestor Garcia. Consumidores e cidadãos. Rio de Janeiro: Editora UFRJ, 2005.
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Sites
Site oficial da banda Simple Plan. Disponível em: <http://www.simpleplan.com/>. Acesso em: 30 de novembro de 2009.
Vídeo clipe oficial da música “Perfect”. Disponível em: <http://www.youtube.com/watch?v=X60KwLs5Qpc>. Acesso em: 30 de novembro de 2009.