Esse trabalho foi realizado como avaliação do curso de antropologia da minha pós-graduação em socio-psicologia.
Este ensaio procura fazer uma breve análise do filme de 60 segundos do Bradesco intitulado “Arena”. Dessa forma, procurei trazer conceitos e exemplos dos textos apresentados durante o curso de antropologia para elucidar algumas questões deste comercial. Cabem aqui, também, alguns conceitos mercadológicos necessários para entender as motivações do Bradesco ao comunicar este filme.
O filme “Arena” foi feito pela agência de propaganda Neogama/BBH para o Bradesco com o intuito de “divulgar o amplo apoio dado pela instituição à cultura nacional”. Nele, é mostrada uma arena onde aparecem sete representantes de manifestações culturais brasileiras: Festival de Parintins, Blocos carnavalescos de Olinda, Festival do Japão, Festa de São João, Festa da Uva, Carnaval e Orquestra Sinfônica Brasileira.
No filme, as sete manifestações culturais vão surgindo, uma de frente para a outra, formando um grande círculo, até que todas estejam presentes. Então, todas vão correndo para o centro, como se elas fossem se digladiar. Contudo, o que à primeira vista parece ser um confronto iminente entre as culturas acaba se transformando em uma festa harmoniosa. Eis que a locução explica:
“Em vez de escolher uma só forma de cultura, o Bradesco apoia o conjunto delas. Porque a cultura brasileira é completa”.
Como é sabido e natural, esse filme de 60 segundos permite interpretações que complementam, extrapolam e até contradizem a situação exposta. Como todos estão em uma arena é possível inferir uma situação de disputa. Essa disputa pode ser tanto no nível comercial, por todas serem financiadas pelo Bradesco, que poderia deixar de financiar uma delas, demonstrando um individualismo competitivo, quanto mostrar essa quase-disputa como um fato que possivelmente acontece no dia a dia da sociedade brasileira – uma cultura tentando sobrepujar a outra – em um nível não apenas comercial que traz à tona uma relação de força e poder.
Em uma pequena sondagem feita pela internet com oito pessoas de 19 a 26 anos, recorte que contempla o público-alvo do comercial, é possível ver uma gama variada de interpretações. Algumas pessoas disseram que o comercial é elitista por usar elementos distantes do grande público, como usar tapete vermelho (que conota exclusividade e exclusão), parecer-se com o Cirque du Soleil – os ingressos para este espetáculo, aqui no Brasil, são de difícil acesso para o público de baixa renda.
“Uma forma inteligente de mostrar que o banco apóia e investe no país, sem moradores de rua, pobreza, etc.”
“Se for pensar nas cores usadas na propaganda, o tapete vermelho como palco dá um pouco a idéia de restrição. Quando fala do carnaval, poderia colocar mulatas, não um mestre sala e uma porta bandeira. Uma coisa mais popular tem mais luz, mais cores, música festiva.”
Outras pessoas, invertendo a lógica anterior, disseram que o banco procura trazer uma mensagem inclusiva por mostrar diversas culturas:
“quando uma empresa divulga que está de portas abertas para todo tipo de gente passa mais confiança a certos clientes”.
“curti a junção porque de certa forma une o brasil, mostra a diversidade existente no país”.
“é um banco quue tende a atender todos os tipos de pessoas, independente da cultura, localidade e classe social”.
“o Brasil tem diversas culturas num só país. todas elas em alguns momentos concorrem entre si, mas ajudam o turismo das determinadas regiões e o Bradesco é completo por estar em todas as regiões e apoiar todas as culturas”.
“Me pareceu que o Bradesco tenta se parecer com um Mecenas. E além disso, afasta a imagem elitista por dizer que apóia todas as formas de cultura”.
Foi possível ver também que a mensagem pode se tornar incoerente com aquilo que as pessoas acham da instituição:
“Acho que é uma das melhores propagandas do Bradesco que já vi, mas é estranho colocar uma ideia boa num banco ruim. Parece que não combina com a marca. Pra mim o Bradesco não passa tanta credibilidade e conheço muita gente que pensa do mesmo jeito. Eu não teria conta lá”.
Essa pseudo-disputa entre as manifestações é colocada em pé de igualdade por serem inseridas em uma arena redonda que não privilegia ninguém. À primeira vista, essa arena pode ser compreendida como um combate da roma antiga; após todas começarem a se apresentar por meio da música e da dança, o tom da comunicação nos leva para um circo, onde não vemos mais a disputa, mas o brilhantismo de cada manifestação cultural. Essa igualdade de disposição na arena nos permite inferir que não existe, entre as manifestações apresentadas, um discurso de que o diferente é igual ao atrasado. Poderíamos até ver essa reação diante da alteridade, por isso ser próprio da natureza das sociedades e, principalmente, porque muitos costumes não nasceram de alguma necessidade interna ou incidente favorável, mas apenas da vontade de não permanecer atrasado em relação ao grupo vizinho. Sabemos que todas as sociedades humanas apresentam um estranhamento diante dos costumes de outros povos, fazendo uma avaliação de formas de vida distintas a partir dos elementos da nossa própria cultura. O etnocentrismo – aquele estranhamento diante dos costumes de outros povos, a avaliação de formas de vida distintas a partir dos elementos da nossa própria cultura – e a reação que vem a partir dele, fazem parte da própria natureza das sociedades. Ele acontece ao julgarmos o certo ou errado, o bonito ou o feio, a partir dos próprios padrões culturais. Porém, como dissemos, esse estranhamento talvez não seja visto pelo motivo que o senso-comum já tratou de batizar: “o brasileiro é preconceituoso, mas não diz que é”.
De qualquer forma, é interessante ver isso em um discurso comercial, já que as dessemelhanças entre sociedades e grupos não desaparecerão e o motor de desenvolvimento da sociedade é justamente a diversidade (Strauss, 1962).
Quando voltamos nosso olhar para a arena como um todo, vemos a platéia vazia. Por outro lado, a arena está repleta de representantes das sete manifestações culturais, o que permite inferir que os atores desse espetáculo são a sociedade, que participa ativamente de sua construção, atuando como criadores e criaturas do mundo das regras (Lévy-Strauss, 1976; Fortes, 1983). Esses atores (homens) são seres sociais, e usaram a arena para compartilhar com outros homens suas formas de agir e pensar. Nessa simulação de sociedade, podemos assumir, de acordo com a visão de Boas, que a arena (assim como a sociedade) é usada como um instrumento para a transmissão de cultura entre os indivíduos. É é justamente por meio da sociedade que a cultura atua permitindo aos seres humanos darem significado as suas ações e ao mundo que os rodeia.
Outra analogia que podemos estabelecer é que as manifestações culturais são usadas como metonímia, um recorte da cultura de um povo para representá-lo por inteiro. Por meio desse discurso o Bradesco procura ampliar o discurso comercial e, por causa disso, tem-se a impressão de que ele financia não apenas as manifestações culturais expostas mas a cultura brasileira como um todo. Essa formalização da metonímia é concretizada na locução: “Em vez de escolher uma só forma de cultura, o Bradesco apoia o conjunto delas”. “Porque a cultura brasileira é completa” fecha o trecho anterior e instiga, pelo menos, outras duas perguntas: só a cultura brasileira é completa? É possível considerar uma cultura completa com apenas sete manifestações culturais?
Essa abordagem de supervalorizar uma iniciativa mercadológica pode ser compreendida como um processo que vem ao longo de anos. Nas úlitmas décadas as empresas passaram a enfrentar sérios problemas por encontrarem uma forte homogeneização de produtos e serviços. Por isso, a maneira como a marca aparecia na mídia foi decisiva para mostrar seu diferencial frente a concorrência. Uma das maneiras de se diferenciar no mercado é, justamente, por meio do patrocínio da cultura. Essa é uma estratégia mercadológica amplamente utilizada pelas empresas para a construção e diferenciação de uma marca. O Bradesco parece tentar abordar, com o apelo cultural, um consumidor que se importa cada vez mais com o papel que as empresas desempenham na sociedade, como conceituou Friederick Webster ao cunhar o termo “consumerismo”. Com esse tipo de iniciativa o Bradesco procura elevar a importância de sua marca para além do aspecto funcional, atribuindo à instituição uma bela dose de significância cultural. Com essa idéia é possível pensar também em Baudrillard sobre o atrativo do produto consistir em sua pretensa superioridade funcional em relação a todas as alternativas disponíveis, e em Sahlins sobre a troca e o consumo serem, de fato, meios de comunicação, já que as pessoas também transmitem sua identidade e atuam politicamente por meio do consumo (Canclini, 2005). Ainda de acordo com essa idéia, Sahlins explica:
“O objeto representa um conceito humano exteriorizado, como um homem falando com outro por meio de coisas. (…) os bens representam um código objetal para a significação e valorização das pessoas e ocasiões, funções e situações”.
É possível ver que a escolha das manifestações culturais para o filme considera uma segmentação não apenas cultural, mas também demográfica, geográfica e social. Cada uma tem uma função, comprovando o argumento de Sahlins sobre produtos serem produzidos para sujeitos sociais determinados. O Festival de Parintins representa uma festa regional do Amazonas; o Festival do Japão representa as colônias japonesas do estado de São Paulo; a Orquestra Sinfônica Brasileira parece ter um apelo para a população de maior poder aquisitivo, por distanciar-se dos demais como uma representação popular da cultura brasileira, principalmente se pensarmos no acesso (financeiro) da população a esse tipo de manifestação.
Para corroborar esse raciocínio, podemos pensar na maneira como essas manifestações culturais se apresentam. Todas elas estão com roupas e objetos que remetem a sua cultura, justamente como Crawley defende que a roupa expressa os movimentos sociais, assim como todos os graus sociais, expressando também seu caráter familiar, municipal, estadual, regional, tribal e nacional. Outro pensamento que se aproxima dessa idéia é a de que tons claros e pastéis, mais discretos, são típicos da classe alta, enquanto cores brilhantes e contrastes fortes são próprios da classe baixa (Birren, 1956).
Vale, aqui, também evocar dois conceitos relevantes: o primeiro, de que é por meio das práticas de lazer que acontece a formação de discurso e práticas de sociabilidade; o segundo é que uma pessoa vê a si mesma como membro de um grupo apenas em oposição a outros grupos (Beviláqua; Leirner, 2000), justamente porque a identidade se estabelece pela comparação. Dessa forma, o filme mostra elementos distintos que trazem identificação para os diferentes grupos sociais e procura apresentar uma amplitude maior enquanto discurso para atingir maior parte da população.
Sahlins nos ensina que “a mera aparência deve ser uma das formas mais importantes de asserção simbólica na civilização ocidental” e é por meio dela que o filme também nos traz a questão do exótico – um elemento situado fora do meu mundo diário, do meu universo social e ideológico dominante (DaMatta, 1993), ao mostrar diversas manifestações culturais que não são, necessariamente, familiares aos olhos de toda a população exposta ao comercial – o que implicaria no conhecimento e na intimidade.
Como disse Adam Kuper, “o debate sobre a cultura voltou a ter um caráter político”. Por meio do conceito de multiculturalismo, as diversas culturas reinvidicaram sua legitimidade frente a “alta cultura oficial” e é por meio dessa idéia que ganhamos cada vez mais a noção de uma sociedade brasileira composta por diversas culturas e não apenas por uma única cultura homogênea – isso porque uma cultura homogênea impõe regras a todos enquanto o restante da população é estigmatizada por ser diferente.
Nessa arena cultural, as pessoas são livres por terem seus valores culturais respeitados. No entanto, esse sentimento de liberdade pode não ser verdadeiro, pois, como ilustrado pelo depoimento de algumas pessoas, o indivíduo pode não se sentir representado por um esteriótipo de sua cultura – já que o mesmo elemento é passível de diferentes interpretações e o esteriótipo acaba reduzindo o elemento esteriotipado. O efeito reducionista do esteriótipo pode ter sido usado como uma ferramenta para ilustrar uma manifestação cultural e tentar facilitar o reconhecimento dessas manifestações por parte da sociedade, uma vez que esta já pode ter uma forma pré-estabelecida de manifestação. Porém, não podemos nos esquecer que todos temos identidades múltiplas no dia a dia e, mesmo que tenhamos uma identidade cultural primária, podemos não querer nos ajustar a ela (Kuper, 2002).
Usando a idéia de sociedade sugerida por DaMatta – como um sistema composto com o mínimo de coerência interna, onde as contradições, conflitos e posições divergentes são próprios da constituição social e estão impressos nos grupos, regras, segmentos e indivíduos que possuem múltiplos interesses, ao final do filme temos a sensação de pertencermos a uma sociedade coesa composta de perfeitos estranhos, já que, ainda parafraseando DaMatta (1993),
“(…) o homem não se enxerga sozinho. Ele precisa do outro como espelho e seu guia”.
Referências Bibliográficas
Livros
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CANCLINI, Nestor Garcia. Consumidores e cidadãos. Rio de Janeiro: Editora UFRJ, 2005.
CASTRO, Eduardo Viveiros de. A inconstância da alma selvagem e outros ensaios de antropologia. São Paulo: Cosac & Naify, 2002.
DAMATTA, Roberto. Relativizando: Uma introdução à antropologia social. Petrópolis: Vozes, 1993.
HOOLEY, Graham J.; SAUNDERS, J.; PIERCY, Nigel. Estratégia de Marketing e Posicionamento Competitivo. São Paulo: Prentice Hall, 2001.
KUPER, Adam. Cultura: a visão dos antropólogos. Bauru: EDUSC, 2002.
LEIRNER, Piero de Camargo; BEVILÁQUA, Ciméa. Notas sobre a análise antropológica de setores do Estado Brasileiro. IN: Revista de Antropologia. São Paulo: USP, 2000. V. 43 n° 2.
MAGNANI, José Guilherme Cantor. Quando o campo é a cidade: fazendo antropologia na metrópole. IN: Na Metrópole. São Paulo: EDUSP, 1996.
SAHLINS, Marshal. O pensamento burguês. IN: Cultura na prática. Rio de Janeiro: Editora UFRJ, 2004.
THOMAZ, Omar Ribeiro. A antropologia e o mundo contemporâneo: cultura e diversidade. IN: A temática indígena na escola. Brasília: MEC/MARI/UNESCO, 1995.
WEBSTER, Frederick E. Aspectos Sociais de Marketing. São Paulo: Atlas, 1978.
Sites
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Site oficial do Festival de Parintins: Disponível em: < http://www.parintins.com/>. Acesso em 26 de junho de 2009.
Site oficial do Festival do Japão: Disponível em: <http://www.festivaldojapao.com/>. Acesso em 26 de junho de 2009.
Site do filme “Arena”/Bradesco: Disponível em: <http://www.bradesco.com.br/html/content/hotsite/cultura/index.html>. Acesso em 13 de junho de 2009.








